O Mausoléu

Os grossos pingos de chuva batiam com força na janela do meu quarto, Valkíria piava baixinho na gaiola, incomodada com o barulho da tempestade. Faziam horas que eu não conseguia dormir, não porque me incomodava com a chuva, mas porque simplesmente não conseguia fechar os olhos e me acalmar.

Puxei o pingente em forma de “A” de dentro da camisola e o observei por alguns instantes. Tive vontade de arrancá-lo do meu pescoço e joga-lo pela janela, para que o vento se encarregasse de levá-lo para bem longe de mim.

Porém, não tive coragem e acabei por guardá-lo novamente dentro do decote da camisola, tomando cuidado para que eu não pudesse vê-lo. Levantei-me do batente da janela onde estava sentada e caminhei pelo quarto escuro. Antes de sair ainda tive o cuidado de pegar a minha varinha e uma vela que queimava em cima da mesa de cabeceira.

Abri a porta e caminhei em silêncio pelo corredor de soalho escuro e paredes nuas. Subi uma escada em forma de caracol e cheguei a um patamar vazio, a minha frente havia apenas uma porta de madeira escura.

Cruzei o espaço que me separava do portal e estendi a mão para a maçaneta prateada, tentando abri-la, foi inútil, estava trancada. Ergui a varinha que segurava na mão direita e murmurei um feitiço:

- Alorromora. – a fechadura destrancou-se e eu entrei.

O lugar continuava o mesmo, vi a minha mãe sorrindo para mim de todos os lados, as paredes estavam forradas com retratos dela. Deixei a vela que segurava em cima de um aparador de vidro e adentrei o aposento.

Aquele cômodo era uma espécie de mausoléu para minha mãe, tudo o que havia pertencido a ela quando estava viva se encontrava agora trancado naquele lugar. As roupas, os livros, as fotos, as jóias, tudo. Meu pai fazia questão de manter o mausoléu trancado e intocável, ele nem imagina que eu tenha descoberto o que está escondido aqui.

Caminhei até uma prateleira e tirei dela um álbum de fotografias encadernado em couro preto.

- Lumos. – a ponta da minha varinha acendeu e eu me sentei no tapete puído que ficava em frente à lareira que eu suspeitava não ser acesa havia muitos anos.

Folheei o álbum com atenção, a cada foto que passava eu me convencia cada vez mais de que minha mãe fora uma mulher muito feliz, e principalmente livre.

Livre, sem ninguém para lhe fazer sombra ou um fantasma invisível para persegui-la.
Eu quase a odeio por ter morrido... Mas então me lembro que foi ela quem me deu a vida e o ódio que eu sinto parece diminuir...

A verdade é que eu ainda não sei o que sinto por Anabelle Timms.